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Cultura animal e vegetal?

Philippe Descola, Antropólogo, Professor do Collége de France, revela como foi surpreendido pela visão de uma floresta Amazónica em plenas funções de relacionamentos “socio-culturais” entre seres dos reinos “Animal” e “Vegetal”. A começar pela própria Floresta, mundialmente tida como o último reduto da vida selvagem pura, virgem… ao invés, ser entendida pelos seus habitantes, Ameríndios de várias tribos, como “construída”, através de uma “arquitectura vegetal” constando de grupos de “jardins de subsistência” onde algumas centenas de plantas úteis, comestíveis e medicinais, se combinam com as restantes “selvagens”, trocando influências, disputando territórios e, sobretudo, gozando de grande variedade de estatutos entendidos e “socialmente” reconhecidos entre si. Influências e estatutos que se hierarquizam numa linguagem que Descola entendeu como simbólica, negociada, respeitada e cultivada pelos humanos. Mas o que surpreendeu Descola não foi este facto em si, e sim o verificar a distorção que nós (ele próprio), Ocidentais, impomos à leitura desta realidade, classificando-a em categorias como “animismo”, ou “totemismo”, por exemplo, o que automaticamente os identifica com “grupos primitivos” e suas “religiões”. O facto de se pressupor que só a eles (nível “primitivo” do religioso) poderá ser atribuído tal pressuposto, automaticamente restringe a interpretação da situação, impedindo o paralelo que Decolas traçou: “socialização da natureza”. Nesta conjectura, recusa-se admitir interpretações do que ali acontece como comparáveis (ou pertencentes) à categoria e nível do “psicossocial”, como são classificadas quando atribuídas aos grupos humanos. Em tal circunstância acaba por nos escapar o facto de que, na realidade, nessa troca de influências deliberada e objectiva, parecer existir um plano que geralmente interpretamos como “cultural”, quando se trata de humanos, e que neste caso é partilhado pela natureza, ou realizado em plena “natureza”, diluindo a descontinuidade que nós Ocidentais, atribuímos ao binómio Cultura/Natureza”, visto a “cultura” ser aplicada pela própria “natureza” na realização dos seus objectivos… ou seja: é devido ao facto de na selva Amazónica cada classe de seres ter uma forma de expressão das suas características que lhe é própria, procedendo à partilha desta entre os da mesma espécie como se de uma “cultura” se tratasse, ou parecendo mesmo utilizar processos de interioridade e capacidade subjectiva na gestão da situação, parecendo depois traduzi-los numa linguagem simbólica, é que Descola entende poder colocar o fenómeno em paralelo com as dos humanos. Porque esta análise permite ir muito além das classificações de “totemismo”, ou “animismo”, é que Descola propõem outras interpretações, na explicação das quais irá desenvolver os conteúdos da Cadeira de Antropologia da Natureza. Ressalta-se ainda que a classificação de “animismo”, que Tylor (Primitive Culture 1871) define como uma forma “primitiva” de religião (atribuindo-lhe uma perspectiva evolucionista), acabou por conduzir ao fenómeno de rejeição geral da religião e à adopção da racionalidade científica e do materialismo. O que se pode ganhar a partir desta outra postura é que uma integração nestes processos naturais, que estamos habituados a classificar como de segundo plano (mas que podem alternar com os humanos num nível, em muitos casos, paralelo), poderá facilitar à humanidade o ingresso num futuro relacionamento totalmente diferente com esse mundo físico.

02/02/2016

2016-02-12 11:46:38

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