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Considerações finais

Tim Ingold e Philippe Descola, os dois antropólogos a que me referi como figuras cimeiras da actual mudança comportamental (académica) face à “Natureza” (aquela que poderá instalar junto do público uma “reconciliação ambiental”), são também importantes cicerones na descoberta das “Paisagens Rupestres da Ilha Terceira”. Nessa qualidade, invoco as metáforas de que se servem para melhor conduzir a leitura desta realidade tanto tempo “submersa”. Melhor traduzida em imagens do que em palavras, é no entanto com base na perspectiva fornecida pela antropologia do espaço (através da fenomenologia) que me posiciono para apreender o que nesta paisagem existe de contraditório (em relação à sua leitura pelo senso comum) e trazê-lo à superfície das nossas consciências. Desconcertante na sua simplicidade enganadora, tanto tempo mantida incógnita, manifesta-se agora através das muitas sugestões deixadas por estes senhores da antropologia, mantendo-se porém no campo das hipóteses, como uma conexão misteriosa estabelecida por gente misteriosa, na transmissão de uma mensagem misteriosa, expressa em traços misteriosos… Sendo que, não trazendo explicações para nenhum destes mistérios, a colaboração da antropologia do espaço expressa-se na abertura de uma visão que permite a constatação da sua existência (o que a arqueologia falhou em alcançar). Ao conferirem uma importância desusada a manifestações semelhantes às que aqui são propostas como objecto de estudo, e principalmente, ao transferirem para elas o tipo de respeito e atenção que (na sociedade ocidental) só são atribuídas aos comportamentos do “homem racional”, a abordagem por eles encetada facilita a fixação da atenção em aspectos que, até agora, têm sido ignorados. Rever as Paisagens Rupestres da Ilha Terceira sob este ângulo permite atribuir-lhes uma inteligibilidade de que estavam desprovidas antes. De meros acidentes topográficos, os seus objectos estranhos (pias, menhires, caras e incisões) transformam-se num diálogo petrificado mas pressupostamente inteligível, se observado como meio de transmissão cultural. Na sua carreira profissional, os dois antropólogos criaram rupturas no modo de entender a ciência que estão a estabelecer perplexidades: Descola propondo a extensão do conceito de cultura à natureza, num continuum que interligue as duas; enquanto que Ingold (2011) recomenda uma mudança mesmo no interior do processo científico, sugerindo que no seu fazer não se parta do exterior para dentro, com ideias já feitas em que se “embrulha” (nos seus próprios termos) o objecto de estudo, em conceitos já construídos (como hipóteses a testar), que impedem um directo e profundo conhecimento, mas que se proceda no sentido oposto. No seu conjunto, ambos estão a modificar não só o entendimento do mundo que nos cerca, contribuindo para um futuro seu convívio em bases diferentes das que ainda estão em vigor, mas também, o processo do seu estudo. Este poderá ser o passo essencial na retoma de equilíbrios perdidos, na origem dos quais está o comportamento de predador/explorador irresponsável, em que se tornou o homem, no cumprimento da tarefa (inicialmente mal compreendida e tida como “sagrada”) - de dominar o mundo. “Reeducar” o pensamento social no outro sentido é dos projectos mais difíceis e ingratos, mas também mais essenciais, nesta altura de inquietação quanto ao futuro do Planeta.

16/01/2016

2016-02-25 13:56:36

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