Jornal diario
  • Grupo Oriental  

  • Grupo Central  

  • Grupo Ocidental  

PESQUISAR

RSS
Director: Pedro Botelho pedrobotelho@jornaldiario.com AÇORES traco TERÇA-FEIRA traco 17 DE OUTUBRO
Publicidade
Opinioes
Mais Opinões
Publicidade
Empresas Comunidade soliária
Portais Universos Blogs
Publicidade
Não-domínio
Artigos anteriores
Ver outros cronistas »
Opinião

Não-domínio

Li algures que em Portugal, sobretudo nas cidades de Porto e Lisboa, existem alguns sem-abrigo que “desistiram de viver”. A expressão não está absolutamente correcta, creio que será mais próximo da verdade dizer-se que desistiram de “certa maneira” de viver. Mas eu gostaria de lhes chamar “sem-domínios”. Explico-me: passamos (a Humanidade) a procurar dominar, a criar domínios. Não me refiro somente àqueles homens e mulheres que pisotearam os caminhos do Poder, dos Poderes, sempre com maiúscula: tronos, impérios, governos, o grande-dinheiro, o saber absoluto, & afins – os Outros. Não, refiro-me a todos nós, pequeninos seres que nos nossos quotidianos procuramos dominar as relações amorosas, as prepotências paternas, as indisciplinas dos filhos, a tolice dos mestres-escola, o sem sentido dos colegas de trabalho, a ordenação das bibliotecas e dos trens de cozinha, as ervas daninhas do quintal, os dias da semana, as formigas e os mosquitos, os animais domésticos, o vestir e o despir, as etiquetas e os manuais de procedimentos disto & daquilo, a meteorologia, a respiração a nadar & outros fôlegos, as imposições das modas e as indisposições alimentares, o porta-moedas, as línguas com não nascemos… Não-vontade de domínio, eis o que talvez sejam esses ditos sem-abrigo, diferentes dos outros que foram empurrados para esse extremo da vida pela pobreza e pela doença, e por outros infortúnios maiores. Serem capazes desse desprendimento (quase) absoluto, eis o que neles invejo. E como não tenho a sua coragem (e as suas certezas, quem sabe), limito-me a ter como horizonte possível de vida esse lado obscuro e tranquilo, para ir contrabalançando com a voracidade da energia dominadora que limita a nossa vida. Por exemplo, a que me empurra agora para a tentativa de dominar ervas daninhas e pedras em demasia no meu pequeno quintal – vou até lá, sim, mas levo no bolso a possibilidade de descarte.

http://bloguecam.wordpress.com/ | camlisbon@yahoo.com

(Por vontade do autor, este texto desobedece à actual Norma Ortográfica Portuguesa).

2016-04-10 15:21:00

Imprimir notícia