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Opinião

Nas encruzilhadas futuras

As implicações da introdução dos voos de baixo custo no mercado açoriano não são ainda conhecidas na totalidade da vida do arquipélago. Não serão todas positivas. Manifestar-se-ão, por exemplo, desafios à identidade açoriana. Mas num sentido económico e da modernidade pode dizer-se que se entra num novo ciclo talvez de proporções históricas. Os Açores vão baixar permanentemente no século XXI uma ponte movediça, eficiente, sobre o Atlântico.

A transformação na situação dos transportes aéreos “low cost” não aproxima apenas a Europa dos Açores como destino turístico. Há já indícios de que as companhias aéreas cruzando sobre o antigo “mar português” ao longo das rotas latitudinais, se preparam para um período de competição de âmbito revolucionário. A América do Norte e a Europa vão achegar-se, como nunca o fizeram antes, num bloco regional em termos da economia planetária. Estão em jogo as mesmas forças, paralelas a fatores socioculturais e económicos e militares, que na defesa contra os efeitos nefastos dos nacionalismos agressivos justificam a União Europeia.

Eventos incidentais, relacionados com as estratégias da sustentabilidade das multinacionais petrolíferas, apontam para a necessidade de maior estabilidade no preço do óleo. Neste sentido, o ponto mais alto na flutuação daquele valor do crude não deverá distanciar-se, significativamente, das metas necessárias para a sua exploração nos Estados Unidos, que é agora o maior produtor mundial. Há dias, previa-se num comentário inserido em The New York Times que o valor máximo da variação no custo futuro do bidão, provavelmente, não ultrapassará de 15 a 25 dólares em moeda dos Estados Unidos acima da média do ano transato.

Uma das variáveis causais está no prenúncio inquietante que subjaz na ameaça aos combustíveis fósseis usados nos transportes atuais. Provém, dir-se-ia que quase em segredo, de uma invenção americana alcançada há menos de um ano. Os agoirentos porta-vozes do antiamericanismo mundial oriundo de preconceitos e lealdades ideológicas, a que o extremismo capitalista serve de catalisador, ainda que a tivessem reconhecido não se demoram na importância daquele avanço científico e inovador. A companhia Lockeed quebrou a barreira da fusão nuclear, assegurando à humanidade uma fonte inesgotável e segura de energia. Num laboratório na costa ocidental dos Estados Unidos, combustão que mantém acesa a fogueira do Sol foi reproduzida num espaço contido por um campo magnético, sem a ameaça da radioatividade.

Capazes de transporte numa pequena camioneta do tipo pickup, em cinco anos reatores estarão ao serviço da marinha dos Estados Unidos. O Pentágono encomendou já uma centena destes reatores de fusão para aquela arma, o que se compreende como um estímulo. Sempre que uma tecnologia de ponta tem aparecido, o governo americano tem-na protegido através de concessões especiais de ordem fiscal. A globalização dos telefones portáteis, por exemplo, deve-se a esta política estadunidense de que veio a beneficiar a economia mundial. E como corolário importante, simultaneamente, exaltou-se o papel do capitalismo na sua imagem ideológica, alegórico da liderança económica dos Estados Unidos no século em que ainda são a potência mais relevante.

O preço acessível da energia juntar-se-á, assim, à imperiosa necessidade impulsionando a génese de tecnologias verdes ou consentâneas com a proteção do ambiente. Como o azeite de baleia utilizado na iluminação do século XIX, os combustíveis fósseis entrarão em declínio. Conduzirão à eliminação progressiva do óleo ou à sua eliminação controlada como carburante de preferência, evitando um choque global de alto risco para o sistema financeiro que o colapso económico daquela indústria faria eclodir.

A imposição de um mecanismo de equilíbrio, reduzindo a ondulação rápida e destabilizante do preço do óleo, ao contrário do que ocorreu recentemente será vantajosa para as companhias energéticas naquele contexto de transição. Providenciará ao mesmo tempo a transformação suave dos mercados dependentes. Esta situação estimula a confiança com um mínimo de perigo no investimento, minorando o contágio da emoção no comportamento dos donos do capital e dos seus assessores. A insegurança e os cumes erráticos atingidos nos preços do óleo, sobretudo nos últimos anos, colidiram violentamente com todos os modos mecânicas de transporte. Encorajaram, porém, a investigação científica de que derivaram as tecnologias emergentes ou o aperfeiçoamento de sistemas inovadores em situação de negociação credível para a obtenção de financiamento.

A urgência está ainda na mudança climatérica, cujas repercussões fazem perigar nas suas menos graves consequências alguns dos mais importantes centros urbanos do mundo. A ascensão da superfície dos oceanos e o abastecimento de nutrição à população planetária devido à prevista inundação dos terrenos fazem parte da narrativa futurológica de ameaças catastróficas. A alteração significante nos padrões de pluviosidade à volta do globo terrestre contribui, outrossim, para este mapa hipotético com uma alta probabilidade de realização. Dinâmicas naturais e talvez processos cíclicos no perfil cósmico e desenvolvimental do planeta Terra foram reativados pela atividade humana. Estão relacionados com o uso de combustíveis fósseis e a emissão de dióxido de carbono e outros gases poluentes para a atmosfera.

Nesta visão informada pelo discurso científico na literatura multidisciplinar, os Açores não ficarão imunes à mudança de dimensões alarmantes que se projetam para o fim do século. Por exemplo, a seguir à última Idade do Gelo, que ocorreu há cerca de 12 mil anos, o mar dos Açores teria galgado as costas em cerca de vinte metros. O mesmo processo descongelação observa-se agora com o desaparecimento dos gelos primevos do Ártico e o incremento do degelo na Antártica. Em meados da segunda metade deste século, os portos açorianos estarão, provavelmente, submersos. Grande parte das povoações à beira mar desaparecerão, engolidas pelo oceano. O Corvo poderá ficar em risco de abandono pela sua população.

Tanto quanto a realidade imediata sugere, as correntes que se movimentam na mudança tecnológica nos transportes aéreos, os voos low cost prevalecerão brevemente na travessia do Atlântico. Um vasto fluxo de visitantes, acrescido de americanos e canadianos, não só de ascendência açoriana, modificará o turismo insular.

A preparação que urge prosseguir para potenciar o crescimento das estruturas indispensáveis à sustentabilidade deste novo ciclo económico na história açoriana não parece poder reduzir-se apenas à visão governamental. Aquilo que o arquipélago tem para oferecer ao turista não pode ser fabricado como as festas renascentistas na Ribeira Grande, nas quais até um mau conhecedor encontrará sem esforço a artificialidade inaceitável. Nem às mulheres de capote das ilhas do Triângulo, uma delas calçando sneakers visíveis sob a pesada capa do vestuário avoengo, outrora típico entre quem era alguém na classe do morgadio. A história da Renascença, ou do tempo do povoamento dos Açores, é demasiado conhecida numa perspetiva europeia das pessoas procurando nas visitas por esse mundo a diversidade cultural que enriquece a experiência humana de ontem e dos nossos dias.

Os que os Açores são, são hoje. O que foram no pretérito ficou registado nos documentos antigos, por vezes reconhecido em silêncio na falta de qualquer menção ou na obra proscrita de vítimas da perseguição cruel dos donos do império. Internalizou-se de modo simbólico na memória coletiva e na herança rica do folclore alegórico dos ressentimentos da exploração socioeconómica e do abandono nas horas mais cruéis da sua existência, como no desassossego psicológico e político da identidade social.

Nas dinâmicas que lhe conferem definição nas ciências sociais, a cultura é como o curso de uma ribeira em movimento. Cada momento existe apenas uma vez em relação a qualquer ponto de referência temporal. Talvez o passado açoriano não é conhecido no mundo. Mas não houve um cuidado da suas elites mais recentes de maneira a mantê-lo com rigor para os visitantes nem para os açorianos. Numa situação aberrante de que a Pousada de Santa Cruz na Horta era quadro flagrante de neocolonialismo descerebrado no verão de 2012 , não houve a habilidade de pensar o futuro como postal turístico. Em São Miguel, imaginou-se uma metrópole de betão armado para servir de trono aparente a um submisso governo regional que se diria robotizado. O “turista de qualidade” tem fora do arquipélago acesso a instituições de educação e cultura, como os museus, que no arquipélago se não podem igualar.

O turista orientado para os Açores pertencerá em súmula rápida a três grupos de interesses nem sempre díspares, de origens distintas. Na Europa, quererá a quietude dos pequenos mundos, como lhes chamaria Ferreira de Castro num dos seus títulos em meados do século XX. A beleza do mar e da terra numa comunhão ecológica será talvez ponto de referência atitudinal, cuja interação com o organismo extasia na sensação de segurança e paz. Insistirá decerto na qualidade das acomodações, na elasticidade do seu dinheiro no poder de compra. Será amante do mar, na grandiosidade da flora e da fauna e da experiência que lhe proporcionará a distração. E os vulcões dormentes, como nos caldeirões fumegantes de basalto a água em cachão, iluminando ao lado das pedras negras de lava contorcida e ainda recente o parto furioso e pujante das ilhas que serviram de trampolim na descoberta dos continentes.

Os portugueses da Metrópole seguirão a eminência da epopeia sempre renovada na imaginação de todas as gerações subsequentes aos rumos dos caravelistas de antanho. Na voz e no encontro de gente remota que se manteve portuguesa quando Lisboa, havia anos, tombara exaurida sob as armas espanholas ou franceses, celebrarão Portugal na sua identidade pluricentenária. Perguntar-se-ão, os que não olvidaram a história da introdução do governo constitucional no seu país, como os “bravos do Mindelo” marcharam das aldeias insulares para que o “rei soldado”, vindo do Brasil, prevalecesse sobre a injustiça e o compadrio sociopolítico que sempre se manteve predominante. As condições económicas do país não lhes dão qualquer vantagem no contraste com outros povos. É fácil observar isto, como o fiz em Ponta Delgada, ou na Horta onde dormem o sono eterno as gerações que me precederam na entidade genómica que sou. Contavam as moedas por vezes, com a ansiedade no rosto, felizes ao mesmo tempo como só eles sabem experienciar emoções por vezes antagónicas num prodígio de separação entre a cognição e a obediência atitudinal perante a realidade das elites corruptas do poder partidário.

Da América, nunca os emigrantes deixaram de regressar como os muçulmanos a Meca sagrada do Corão. Numa presença individual, ou em grupos familiais, serão quiçá em maior número para satisfazer a sede da saudade lacrimosa. Recriarão a vivência juvenil, ainda que pobre, carecida de instrução e oprimida na maior parte dos casos. Mas mais, muito mais numerosos, serão excitados na vontade de ver e saber, de tocar e sentir, cheirar e ingerir a memória, simultaneamente individual e coletiva, do apego da criança aos pais feitos por processos quimiosensoriais e da aprendizagem social. É ali, no âmago de páginas cerebrais no labirinto de neurónios protoconscientes, como as visionou António Damásio, que se guardam interativas as moléculas neurosócioculturais. No regresso à fonte genética e experiencial da açorianidade, deslocar-se-ão os filhos, acompanhados, frequentemente, de cônjuges de outras culturas e fenótipos. Os últimos, como os netos, falarão em inglês, o modo de comunicação predominante no espaço universal e afetivo da açorianidade ou da identidade que se manifesta em ser-se açoriano.

Não obstante a aparência de congenialidade descontraída, de tranquilidade e no respeito pela igualdade social, esta diáspora tenderá a ser exigente na qualidade dos serviços, no profissionalismo dos empregados, na sua privacidade e com um profundo sentido de repugnância e revolta perante qualquer tentativa de impostura.

(Sobre o conteúdo deste último parágrafo, voltarei ainda no futuro, para fazer referência a exemplos específicos. Tentarei substanciar a minha impressão de que falta ainda nos Açores a prática de um conceito de hospitalidade e de sensibilidade pelas diferenças culturais entre os membros de outras sociedades visitando as nossas ilhas. Regressarei a este espaço em duas semanas, reduzindo a minha colaboração a uma frequência bimensal).

(1) Apenas o peixe e talvez a carne eram dos Açores. Os pratos na ementa e os vinhos, como as aguardentes, tinham origem na Metrópole. Na mais significante fortaleza do Faial, detrás de cujas muralhas ameadas se desenrolaram os grandes dramas históricos da resistência militar a invasores espanhóis e ingleses, num berro brutal em testemunho simbólico do centralismo colonial plantou-se um padrão insensível, senão de desafio, ao ressentimento latente e impotente contra a exploração económica e política da terra açoriana.

Março, 2015

2015-03-30 08:12:00

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