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Uma semana “em pêras”
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Opinião

Uma semana “em pêras”

A semana passada troaram alto os tambores partidários nos Açores. Dir-se-iam os canhões das naus reais, quando aportavam às ilhas, recentemente povoadas, com ordens para o abastecimento das guarnições metendo lanças no Norte de África. Foi assim no tempo em que esquartejaram o pobre Pacheco por alguns sacos de trigo.

Pinto Balsemão e Manuel Alegre vieram ao Arquipélago. Foram bem recebidos, como não podia deixar de ser. Tanto um como o outro são vistos deste lado do Atlântico, também, com o reconhecimento que sempre mereceram. Cada um de filiação sectária oposta, pertencem a uma minoria política que tem defendido nos areópagos legislativos o direito dos açorianos governarem a sua terra. Aperceberam-se de que não é preciso ser-se separatista para observar com óculos sem o filtro da elite do poder o centralismo afogando a economia açoriana. E a identidade do Povo dos Açores, na prática do neocolonialismo abjeto que não escapa a quem sabe ver. Ultrapassaram a visão do império ainda presente nas caravelas sempre de velas desfraldadas no imaginário da presunção nacional.

No ambiente eleitoral que principiou já a aquecer, nas Lajes do Pico o presidente do Executivo açoriano utilizou o fórum da Fundação Luso-Americana, já mais diplomático na linguagem mas insistente, para amedrontar de novo os americanos. Reergueu o espetro de papões fantásticos, imagens paradisíacas de uma suposta afetividade que os Estados se não dão à cortesia de praticar quando os orçamentos nacionais não o consentem. Desta vez não exigiu a transferência alegórica do Fort Knox para os arranha-céus liliputianos de Ponta Delgada, transfigurada no betão armado da paranoia partidária.

De resto, servindo de fundo apropriado à justificação americana para algumas medidas do Pentágono que se relacionam com a diminuição da sua presença na Terceira, convém recordar a política do governo de Passos Coelho para com os Açores. De amor à primeira vista, disse o Primeiro-Ministro. Porém, aquele gesto desapaixonado teria descomovido ou talvez repelido muita gente. Cheirava à poção de embude das bruxas da Idade Média. Aquela paixão oportunista teria por característica a escusa de que as finanças nacionais não permitiam à tesouraria metropolitana tampouco cumprir com o acordo sobre o diferencial fiscal.

Um ano ou pouco menos depois, uma ministra do seu governo, a quem compete contar o dinheiro na burra do seu ministério, anuncia urbi et orbi que os cofres nacionais se encontram abarrotando de euros. Nada menos do que um milagre. Nenhum programa como as eleições poderia fazer com que as maleitas de um país desapareçam na imagem mágica do partido do poder. Assim ao modo da escritura de uma casa na aventura domiciliar da vila algarvia de Cavaco Silva. Nas fileiras da PIDE, de que é acusado na internet de ter pertencido mas nunca divulgado, o atual Presidente da República terá aprendido alguns artifícios de Houdini na prática da Alzheimer política.

Mário Mesquita, sempre o mesmo homem calmo e de caráter, pensador inteligente, esteve também naquela vetusta povoação elegante, cujo casario branco se reflete nas águas do antigo porto baleeiro na ilha altaneira. Sob a sua liderança, a Fundação Luso-Americana mudou de rumo. Precisava ser lembrada, como ele muito bem fez, de que se existia era porque nos Açores os Estados Unidos tinham uma base integrada na Organização do Atlântico Norte. Até então fora um palácio no Continente, recheado de mobília cara e aristocrática, para gáudio de um senhor político pago em salário de ouro pesado e extravagante.

Desde Cavaco Silva a Mário Soares, e outros que após o 25 de abril julgaram que poderiam com impunidade ameaçar a segurança da América e da Europa com uma foice e um martelo, os protestos e as ameaças portuguesas soaram, intermitentes, no contexto do uso da base. Um dia, quando ainda se não cogitava no potencial económico do regresso dos Sefardim com nacionalidade portuguesa, Lisboa quis proibir o abastecimento das aeronaves americanas utilizadas no reforço de Israel.

Depois foram os aviões com prisioneiros da Central Intelligence Agency (CIA). Bateu-se com o pé em Lisboa para que se indagasse em Washington se era verdade. Nas conversações para a renovação do acordo quando o atual Presidente da República era ainda Ministro dos Negócios Estrangeiros, ficou marcada a memória da sua intervenção. Com palavras publicadas em The New York Times, cujo simbolismo se podia ler sem dificuldade nas entrelinhas. Nacionalista dos quatro costados, impertinente, detestável como uma barata olharia os outros do alto do nariz empoleirado na máscara de gesso que o caracteriza. (Leia-se o retrato ad dominem apenas como chiste, sem ofensa pessoal ou falta de respeito à função de Chefe do Estado).

Sem necessidade de rebentar bombardas em véspera de eleições, Mário Mesquita divulgou modos de interação e de resolução de conflito numa entrevista ao Diário dos Açores que serviriam bem a Vasco Alves Cordeiro. Os homens com formação na disciplina da comunicação sabem da psicologia interpessoal. Procuraria, colaborativamente, em campo comum aos esforços do embaixador americano, Robert Sherman, encontrar alternativas para as instalações da Praia da Vitória e das Lajes, na Terceira, e da intervenção saliente dos Estados Unidos no auxílio aos Açores. Como no primeiro gesto rude do Governo de Portugal, ou até da birra infantil do Governo Regional, não parece boa tática tentar obter do Governo dos Estados Unidos, ou de quaisquer outras entidades soberanas, concessões sob a ameaça de um pau leve de criptoméria. A atitude de Presidente açoriano e a estória do interesse da China são razões fortes para uma mudança de governo. Vasco Cordeiro, que me desculpe por favor dizê-lo a um homem bom, perdeu a credibilidade na arte de savoir faire e ciência da governação.

Outra figura, que como Mário Mesquita merece uma vénia referencial e laudativa na perceção dos eventos da semana passada, foi Mota Amaral. É preciso que Duarte Freitas não o olvide, ainda que em véspera de eleições seja difícil contentar gregos e troianos na contenda latente que se travaria entre as marionetas do palco da partidocracia do Partido Social Democrata nacional. Quando Mota Amaral confrontou com audácia a política de Passos Coelho, que arrastava os Açores na austeridade excessiva exigida pelos banqueiros internacionais, ele proclamava o espírito da Autonomia por que como poucos tem combatido. Foi seu progenitor com o auxílio de José de Almeida, implícito mas divergente em termos de ideologia. Depois ainda, votando com os deputados açorianos do seu partido na Assembleia da República contra a revisão da Lei das Finanças, altamente lesiva do interesse comum dos Açores, Mota Amaral recebeu a intimidação coletiva emitida pela cúpula. A hierarquia do partido ameaçou-os com sanções, que podiam ir até á expulsão. O governo exigia-lhes obediência ao partido em desmerecimento do povo que ele representa. Outros decerto teriam vacilado em circunstâncias semelhantes. De aparência frágil, Mota Amaral possui, todavia, a têmpera do aço e a convicção profunda da açorianidade.

Mota Amaral enfrentou então a partidocracia e a elite do poder do império, afirmando o direito de recorrer ao Tribunal Constitucional. Apelaria em Bruxelas se necessário. Lisboa desistiu. Mas Passos Coelho não terá esquecido. O jornalista Osvaldo Cabral, sempre bem informado, insinuava há semanas que em Lisboa se pretenderia substituir Mora Amaral por Berta Cabral. Mas é difícil antever que a ex-presidente da Câmara Municipal da primeira cidade micaelense se tornaria num joguete do partido. Seria uma jogada que decerto prejudicaria o PSD nos Açores. Mota Amaral é ainda muito popular e estimado nas nove ilhas e na diáspora. Mas do PSD nacional tudo é possível, incluindo o sacrifício político da Subsecretária da Defesa.

Também na semana passada, o Representante da República veio a lume com a crítica ao governo de Vasco Cordeiro, preconizando políticas da educação e de apoio a áreas insulares de economia altamente debilitada. Referiu-se de modo específico a Rabo de Peixe. Pedro Catarino até teria razão se fosse um cidadão açoriano. Estava correto na perceção. Neste contexto, mereceria o aplauso da comunicação social. Mas o quinto poder expressou-se no silêncio. Não teve coragem de condená-lo com palavras por esta última incursão em assuntos da jurisdição dos órgãos do Governo Regional. Quiçá petrificou-o a surpresa.

Como Representante da República, sobretudo em véspera de eleições, a desnecessária ingerência insultuosa de Pedro Catarino na política açoriana ultrapassou as fronteiras das suas funções ofensivas de cão de guarda, para as quais o povo açoriano não o elegeu. Mas Pedro Catarino tem sido muito consistente numa dimensão cognitiva com a arrogância institucional de quem o nomeou.

2015-04-14 16:37:00

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