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As boias da memória
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Opinião

As boias da memória

Numa rede social em que participo apareceu há dias um artigo sobre falares da ilha do Faial. O autor reportava que ali se chama ou já designou uma boia na linguagem popular uma boina. Ora eu nunca ouvi isto. Nado na Horta, criei-me no Faial e no Pico. Quando saí da minha terra natal, conhecia-a como se fosse uma das minhas mãos. Por isso comuniquei logo com gente amiga para verificar se o erro era meu. Respondi depois, questionando a autenticidade da informação. Tanto quanto num grupo somando cerca de uma dúzia de naturais da Ilha Azul todos os indivíduos podiam recordar, nunca ali uma boina foi uma boia. Neste processo, todavia, troquei mensagens em que me acudiram à memória outras reminiscências.

Na investigação sociolinguística as características idiossincráticas da linguagem de uma família ou mesmo de duas ou três não constitui material de referência. O método estatístico é usado nestas circunstâncias para se avaliar a frequência num contexto referencial da história social. Só assim se protege o valor antropológico do registo etnográfico. Em meados da década de 1950 havia uma família na freguesia das Angústias conhecida pela alcunha de Meia-lua. O seu chefe morreu num acidente a bordo do navio Archimedes que um vendaval invulgar e ondas gigânticas atirou de encontro a um pequeno areal semeado de baixas basálticas que então se comprimia de encontro à muralha em frente ao Largo do Infante. A viúva usava o verbo ir como “dir”. Como em fulano vai “dir” ali, mas eu “dir” acolá “não vou dir”. Algumas pessoas disseram-me então que outros membros da família original daquele senhora se haviam expressado do mesmo modo. Mas eu nunca ouvi outras pessoas que o fizessem. Nem os filhos, que conheci bem, manifestavam a mesma peculiaridade. Numa frequência de vários milhares uma amostra de 1 ou pouco mais não tem valor representativo porque careceria de propriedades para a sua análise. De maneira que o eco de falares antigos ou mesmo recentes carecidos de memória na narrativa social é de relevância muito duvidosa na generalização.

A boia, por outro lado, foi um objeto cuja função e anatomia aprendi a reconhecer nos primeiros anos da minha vida. Meu pai e meu avô materno receberam ferimentos na explosão de uma mina nas oficinas da companhia Fayal Coal nos anos 30 de 1900. O meu progenitor passava pelo local por acaso. Meu avô laborava no momento do sinistro numa embarcação varada na rampa do Cais de Santa Cruz. Durante alguns anos, Mestre António José Silva, registado na memória dos seus pares como O Boga, era maquinista da lancha baleeira Liliana.

A poita assinalada por uma boia no Porto do Comprido, era a da Liliana nos meses de verão. A boia fora feita de uma esfera de ferro encontrada flutuando no Atlântico. Ninguém sabia que se tratava de uma mina alemã da guerra de 1914-1918. Um dia, quando tentavam soldar uma argola na superfície daquele globo metálico, deu-se uma explosão como nunca se sentira. A cidade tremeu. Uma coluna de fumo galgou a encosta do Cabeço das Moças e espraiou-se sobre a ilha. Os sinos da Igreja de Nossa Senhora das Angústias durante segundos tocaram por si mesmos. O edifício das oficinas dilatou como um peixe-sapo cheio de ar e os seus destroços foram lançados a centenas de metros de distância. Meses mais tarde, o odor terrível da morte ainda anunciava em telhados vizinhos restos de corpos de gente incógnita. Houve numerosos mortos e feridos.

Na Porto da Horta havia boias pintadas de cor vermelha, às quais se acorrentavam lanchões e navios. Onde hoje está a Marina junto ao Forte de Santa Cruz, formara-se pela ação das marés uma praia de areia negra. Ali se refrescava nos dias quentes do estio a população citadina. Ao meio da distância entre o casario e a doca, uma boia recebia por vezes as amarras de navios. Naquele local, durante a guerra de 1939-1945, estacionara um tanque aliados que abastecia os destroyers ingleses e americanos caçando submarinos alemães. Era naquele boia que eu descansava quando, nadando, atravessava a baía nos dois sentidos. Os pescadores, trabalhadores da baía e quem quer que seja que eu conheci naquele tempo, ninguém chamava àquelas boias uma boina. Os meus tios maternos, como meu pai durante alguns anos, eram “ratos da baía”. A designação de boina seria tão ridícula que os levaria decerto a gargalhar.

Não é, porém, o assunto que eu pretendo inserir na crónica de hoje, mas um trecho da minha interação por escrito com o autor naquele formato público. Voltarei àquele outro tópico noutra ocasião no contexto dos estímulos mnésicos intervenientes na identidade. Os falares, os hábitos, até mesmo a cozinha e o vestuário dos grupos constituem âncoras da memória coletiva em que assenta a sua identidade.

Se alguém do Faial, da ilha do Faial, quiser comentar esta boina, por favor. Parece que apenas existiam lá as que se pareciam com a minha. Era um chapéu de forma redonda, de pano, ao que me parece de origem basca. Parecia quase uma bolsa. Jean Piaget deixou-se fotografar com uma destas boinas. A foto do psicólogo suíço em meados do século XX aparece no frontispício de alguns dos seus livros, manuais pioneiros no estudo qualitativo do desenvolvimento psicossocial e cognitivo da criança. Quando as forças aliadas entraram em Paris, cuja liberdade fora restaurada da ocupação nazista, o Exército da França Livre marchou na celebração emocionante com um uniforme de que a boina fazia parte. Se bem me lembro da capa de uma revista americana, Vanguard, que lia em criança, o general Charles DeGaulle, “alto como uma trave”, seguia à cabeça daquela coluna. Ao passar sob o Arco do Triunfo, ele também cobria a cabeça com uma boina.

A boina era um elemento popular do vestuário daquela época, mais comum entre a intelligentsia europeia e grupos de artistas, sobretudo de tendências marxistas, em países da América do Sul. Por isso talvez acabou por penetrar em Portugal, onde as elites intelectuais sempre imitaram os franceses. Eça de Queirós em As Cidades e as Serras, o seu último livro, ironizou os modos afrancesados do que então se entendia pela civilização, que ele antes abraçara antes de redescobrir o recanto campesino e calmo da sociedade rural portuguesa. Em Portugal, porém, a boina não teve durante muito tempo conotações políticas. O caudillo espanhol, Francisco Franco, inimigo figadal do marxismo, chegou a usar uma boina, no que decerto não queria estimular a identidade dos bascos.

Por mim, usava-a também, como outros rapazes, caída sobre a orelha esquerda. Mas só no inverno. Quando cheguei aí pelos quinze anos, já gostava de me pentear com uma queda na frente ao modo do Elvis Presley. Mas uns anos mais tarde a boina como a minha tornou-se numa comunicação em vários cantos do mundo. Em Portugal, os pides viam-na como o levantar do braço direito que se fazia na Mocidade de que eu fui também membro. Todo o mundo era da Mocidade desde que se entrasse para o liceu. Todavia, a mensagem não era a mesma. Por isso eles espreitavam-na. A boina da era castrista diria que Che Guevara, o médico argentino transformado em guerrilheiro e colaborador de Fidel de Castro seria bem recebido em Portugal. Uma verdadeira heresia ideológica nos domínios do Estado Novo, onde os comunistas se torturavam numa versão corporativista da Santa Inquisição.

Nunca fui corado, porém, exceto no rosto em situações inseguras. Uma das últimas passou-se junto ao Largo do Infante, a caminho do Café Volga. Era o santuário da rapaziada estudantil. Bebia-se um garoto em duas ou três horas, numa das mesas redondas, com taça de mármore, junto à porta. O proprietário, que toda a gente denominava de Manuel Branquinho, tolerava aquela atividade, pacientemente. Olhando a rua, miravam-se as pernas das raparigas caminhando no passeio oposto. Umas mais que outras, com a imagem do Pico viril e presunçoso ao fundo, com um capuz branco e frígido já em abril.

Naquele tempo a saia pouco abaixo do joelho já fustigava a imaginação. Muito mais rica do que no tempo do meu avô materno. Então, no tempo da sua juventude, disse-me ele um dia, o artelho feminino abaixo do vestido arrastando pelo chão consistia num incentivo quase erótico. Os mancebos congregavam-se junto à parada do Carrão da Volta da Ilha ao lado de uma barraca de madeira da Guarda Fiscal que existiu à entrada do Portão de Porto Pim até ao fim dos anos 1940. Quando se apeavam do interior do veículo como um tejadilho, as senhoras levantavam um pouco o vestido para não o sujarem sob os sapatos, num degrau situado entre o patim do portaló da carruagem e o pavimento calcetado. Depois a diligência, puxada por dois cavalos, prosseguia na direção da Matriz, com paragens aqui e além até ao Largo da República.

Numa tarde de estio, seguia eu no mesmo rumo com o meu melhor amigo, que depois embarcou com rumo à Califórnia. À nossa frente ia uma jovem mulher de reputação menos adequada nos julgamentos das coscuvilheiras da cidade pacata com fisionomia de vila pitoresca. De corpo esbelto, o derrière cadenciava-lhe o andar como o ritmo de uma dança libidinosa. O meu amigo aproximou-se dela pela retaguarda. Rápido, deu-lhe uma palmada leve e impudente, atrevida, num dos hemisférios rebolando em movimento que quase me mesmerizavam.

– Ó Leal, isso não se faz.

Disse-o olhando na minha direção, sem pestanejar. Sério como um juiz. Ela decerto acreditou-o. Pagaria o justo pelo pecador, pensei amedrontado.

A moça parou. Rodou nos calcanhares de uns sapatos abertos. Dir-se-ia que a volta suave, airosa, se assemelhava a um gesto angélico. Viam-se-lhe as unhas dos pés pintadas de rubro. Naquele tempo, era um risco grave inscrito nos sinais pecaminosos de comportamentos mortais. Contavam-se uns quantos na listagem das prescrições culturais de postura eclesiástica. Alguns nem se podiam mencionar sem o sinal da cruz.

– “Abrenúncio o diabo!”, Diria Tia Noémia Saca, no alto da Areia Funda, na vila da Madalena.

Eu fossilizei. O sangue subiu-se-me às faces em catadupa. Podia sentir o bater cardíaco detrás das orelhas. Quis articular uma palavra, qualquer coisa, uma desculpa. Mas não consegui. Via-a avançar na minha direção. Por um momento não pude fazer coisa nenhuma. Quedei-me, olhando os seus seios reboludos, redondos e firmes. Os olhos verdes não denotavam ira. Na sua boca entreaberta vi-lhe a língua rósea e tentadora. Só hoje recordo que as pupilas não estavam dilatadas. Nem o cariz anunciava agressão. Vi a mão dela elevar-se num rejeito quase meigo. Segui a sua a trajetória até que os seus dedos embateram no lado direito da minha cara. Mas não foi uma bofetada gritando ameaças mudas. Ainda hoje relembro o peso no movimento do embate. Fora uma carícia maldosa, talvez prenhe de promessas que na minha naiveté eu não soube interpretar.

A Loira, assim a conhecíamos devido à cor do seu cabelo oxigenado, prosseguiu depois o seu passeio. Pareceu-me que ondulava mais o corpo até que na curva do caminho ela desapareceu. Pareceu-me que se voltou para trás uma vez. Mas eu continuei a vê-la, às vezes numa tela proibida naquele momento e muitos outros subsequentes, na memória sensual que se perdeu quando me transformei em homem.

Há boias conceptuais que nos amarram nas memórias juvenis. Constroem na argamassa cultural que as protege as imagens mentais da identidade.

2015-05-04 08:01:00

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