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Opinião

A mula portuguesa

Recebi hoje uma mensagem de pessoas amigas que na passada semana regressaram ao norte do retângulo ibérico depois de duas semanas de férias nos Estados Unidos. Persuadi-as a visitar os Açores. Com os preços atuais do paradigma low cost, confirmaram-me que o farão ainda este verão. Muitas coisas me contaram-me de Portugal.

O governo de Passos Coelho entrou numa fase alucinatória. Ainda não enxergou talvez os fantasmas que um dia o presidente da República teria detetado em Belém. Mas de resto parece viver numa dimensão física e cosmológica diferenciada. Quarenta e um anos depois do Bing Bang apilino, um universo adicional engoliu Portugal. Infere-se a sua existência pelo ruído interestelar da explosão inicial. Mas é uma entidade invisível. Por isso não se consegue vislumbrar a realidade que o primeiro-ministro descreve.

A propaganda eleitoral já principiou, se alguma vez foi interrompida. Por ser matéria negra, nada de relevante, porém, se lobriga. Não se consegue observar tampouco um programa que faça sentido ou cuja matemática não recorra às fórmulas exotéricas dos proponentes do multiverso partidocrático. Aparentemente, nem mesmo as contas de sumir do Partido Socialista dão certo. Nestas circunstâncias, a fuga dos cientistas para o estrangeiro não diminuirá. Nem restam alternativas convincentes aos emigrantes proletários. Tinha razão o primeiro-ministro ao assumir a presidência do Conselho de Ministros, encorajando a migração para melhores destinos.

Nos Açores, a SATA, que sucumbia lentamente minada pelas cava-terras nepotistas do Governo Regional, entrou agora num percurso rápido de morte por desleixo e abuso. Dir-se-ia um doente na emergência de um hospital, ligado a um pulmão de aço porque o seu lhe foi roubado por extraterrestres. O inquérito na Assembleia Regional foi posto em sleep mode. Dorme para que se obtenha um parecer jurídico sobre um problema levantado pelo PSD. Os sociais-democratas querem saber se membros do Governo Regional à data dos eventos sob investigação poderão participar nos trabalhos da inquirição. Como se alguém tivesse acionado o travão de emergência de um comboio em direção proibida. Se calhar nem só diabo saberá se há segredos abscônditos por aí.

As minhas amigas perguntaram-me se o presidente do PSD/A tem bebido demasiado do bom e deleitoso vinho tinto do Pico. Não lhes soube responder. Aqui na diáspora, só o conheço por fotografia. Parece um engenheiro hidráulico de olhos azuis, de face rosácea. Na memória vulgar sobre presumíveis benefícios daquela bebida, ainda se crê na Ilha Alta que a cor rubra antediz uma razoável ação fortificante no sangue. Dá saúde e faz envermelhecer.

As notícias de Portugal, que as minhas amigas me comunicaram da Cidade Invicta, não foram grande coisa. A propriedade da TAP já começou a voar para fora do país. Aparentemente, vai aterrar nas mãos de um cidadão americano natural do Brasil. Confrontado com pilotos em pé de guerra e até refratários à ideia da salvação da empresa, prometeu 10% dos lucros aos trabalhadores. Se os houver. O valor daquele fração também será determinado pela administração. Não é um conceito novo para promover a produção e um sentido de identificação com a companhia. Nos EU é quase anátema socialista. Mas na dança sambada e brasuca trata-se de passo que “faz que anda mas não anda”.

O FMI ainda não ganhou bastante com a intervenção em Portugal. Andaria agora em busca de mais. Há quem chama cacau ao objeto deste “mais”, que a minha falecida sogra designava de mula. De maneira que até pelo menos à década de 50 na Fajã de Baixo, da ilha São Miguel, tinha muito dinheiro quem “carregava a mula”. Mas em Os ridículos, uma publicação odiada pela censura salazarista, a metáfora da mula referia-se ao povo português. Parece que a têm em excesso desde o século XII. Mais de oito séculos de austeridade.

Como o país não pode apertar mais o cinto, os banqueiros internacionais preparam-se para aumentar os juros à custa da mula. Quem lhe cai na armadilha fica preso por toda a vida. O processo principia com sugestões, justificando fissuras estruturais que se manifestarão a longo prazo. O propósito, porém, é estimular a ganância das agências de classificação do crédito dos países, amantizadas com a banca promíscua. Juntam-se todos numa orgia em orgasmos múltiplos de um capitalismo sujo e flagicioso. É como fazer sangrar um corpo exangue ou espremer um cadáver. Propõem cortes nas pensões, aumento de horas de trabalho, menos feriados, incremento dos impostos sobre o salário dos trabalhadores, etc. Claro, menos encargos para as multinacionais e as suas associadas.

O FMI queixa-se de que os gerentes portugueses são os que menos sabem na Europa e por isso não podem ser eficientes. Mas a realidade é que a irrealização das suas imposições faria aumentar as verbas que eles se propõem captar com onzenas mais altas no futuro. Suspeita-se de que em breve quererão também a eliminação do Tribunal Constitucional. Sem este órgão talvez um governo ao modo Cavaco Silva – Pedro Passos Coelho venha ainda a concordar numa judicatura constituída pelas multinacionais. Imaginem a Monsanto na presidência. Há uns anos, quis registar os direitos sobre a luz do sol. É de pedir ao nosso Senhor Santo Cristo milagreiro que o demo a destrua.

Pode imaginar-se a isenção de tal magistratura com o que hoje se lia na América (Dia 20). Cinco megabancos foram apanhados em práticas ilegais. Manipulavam taxas de câmbio e fixavam os padrões do juro de referência. O governo dos Estados Unidos aplicou-lhes multas no valor total de pouco menos de 6 biliões de dólares. O banco JP Morgan e o Grupo Citibank vestem uniformes irisados de cores rockefellerianas. O UBS AG deu a mão à palmatória, debilitando a defesa anunciada, prematuramente, pelos dois primeiros. No caso do Barclay, instituição inglesa com uma presença em Portugal de muitos anos, a coima ultrapassa meio bilião de dólares. A do Royal Bank of Scotland aproxima-se de um bilião.

Entretanto, a administração destes bancos nada teria a ver com o crime numa versão hilariante que o Departamento de Justiça americano asserta ser falsa. Contudo, os presidentes, vice-presidentes e toda a hierarquia responsável por este crime sairão ilesos. Manterão os seus salários repugnantes. Os acionistas pagarão pelo que eles são responsáveis. Banqueiros como os do Banco Espírito Santo. O crime do Citibank teve caráter reincidente, com múltiplos descalabros deontológicos em vários países. Mas os ladrões são sempre os mesmos. As máscaras é que mudam. E a linguagem também. Umas vezes exprimem-se inglês, noutras comunicam em alemão. Contudo, os seus homólogos portugueses e os agentes políticos dos últimos também já falam os dois idiomas há muito tempo.

O envolvimento do Banco Real da Escócia talvez não surpreendeu ninguém. Trata-se de uma instituição privada, controlada por um tal Sir John Stuart que foi o mais ativo participante na atividade contra a independência daquele país. Umas duas semanas antes do referendo, anunciou que se a Escócia escolhesse a independência mudaria a sede para Londres. Durão Barroso fez-lhe coro então com ameaças aos nacionalistas. O banqueiro bilionário diz-se descendente da Casa dos Stewart. A rainha da Inglaterra deu-lhe um título para comprovar.

As alucinações de Passos Coelho influenciar-lhe-iam a cognição. O país nem paga a dívida externa a tempo e ele diz que tudo está bem. A única positiva nesta tragicomédia é que o Queijo da Serra continua português. O chouriço transmontano mantém o mesmo sabor. Mas a sardinha, esta já seguiu o destino de Olivença. Na diáspora, só espanhola agora, ou então marroquina.

2015-05-21 07:43:00

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