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Opinião

Ausência

Ausentei-me desta coluna sem, previamente, notificar os potenciais leitores que me leem. As pessoas que se afastam de um local ou de uma situação em que a sua presença está implícita no papel que desempenham, sempre o fazem com um fim e uma razão, ou pelo menos a última. No meu caso, ambos correspondem a um objetivo pessoal. Não venho aqui, porém, escrever sobre aqueles motivos. Um deles, que não foi único, predomina na problemática da condição existencial.

Não consegui cumprir com as exigências das múltiplas obrigações que assumi com esta e outras publicações. Mas nenhuma página da nossa vida, como se diria de um livro, é um vácuo nas implicações. A perceção informa a cognição que introduz o conhecimento experiencial nas transações do processo contínuo de adaptação. Até uma folha em branco serve de conduta para aquela atividade cerebral. Olhando-a, algo nos vem sempre à mente.

O saber formal complementa e permite ajustar as nossas estratégias ou soluções experienciais para as circunstâncias desiguais que nos surgem. Os hiatos no continuum do nosso saber são preenchidos com o conhecimento académico ou institucional que possamos ter adquirido. Mas a probabilidade de erro está implícita até na estrutura quântica dos universos num dos quais, e até possivelmente no gestalt físico do multiverso, se transforma a energia de que somos expressão. Tudo se conserva e movimenta e se liberta da forma de que nos apercebemos na dimensão limitando os mecanismos sensoriais. Ou no mundo plasmático em que estamos inseridos e de que somos parte integrante na sua existência dos átomos que nos dão massa.

O cérebro humano não escapa a esta condição universal, que se manifesta na probabilidade inevitável de falir, na construção do estado de mente que dá continuidade à expressão do pensamento. Os modos que utilizamos na resolução da problemática quotidiana obedecem ainda a estilos peculiares, representativos das diferenças individuais. Mesmo paralelas à flexibilidade necessária para nos adaptarmos às especificidades de cada desafio, as características da personalidade estão presentes na qualidade da interação. Dão tonalidade à exteriorização das emoções. As particularidades diminutas distinguem cada indivíduo como uma assinatura, que se diriam semelhantes às partículas elementares da física em relação à configuração dos objetos. Como um pintor em referência às suas vistas, nos traços da brocha e no simbolismo do conteúdo. Ou um poeta no uso esquisito e ímpar de frases que inventa na associação da ideia e da palavra na construção dos seus poemas, lhe dão um cariz pessoal na sua construção,

Nenhuma pessoa possui, porém, a explicação completa de qualquer momento temporal da realidade. Como nenhuma disciplina nos dá acesso a todo o conhecimento. A multiplicação exponencial dos saberes incrementou a complexidade na categorização do conteúdo explícito e a sua aplicação. Por isso há engenheiros, carpinteiros, jornalistas, médicos, pescadores, e psicólogos. E tantos outros.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Associação Americana de Psicologia possui cinquenta e oito divisões, correspondendo mais ou menos a outras tantas especialidades que vão desde a neuropsicologia, à psicologia militar, a psicologia escolar, a psicologia da educação, e a psicologia evolucionária. Não representam, todavia, todos os nichos daquela ciência experimental, alguns dos quais emergem neste momento. Uma das potenciais áreas mais interessantes estuda a aplicação da física ao comportamento, na hipótese de que tudo o que existe e integra o universo se rege pelas mesmas leis. Em princípio, esta associação tem escapado à observação dos investigadores procurando realizar a tentativa de Einstein de encontrar uma teoria de tudo.

A nossa ignorância individual, e a acumulação do saber específico ou especializado, obrigou-nos a depender uns dos outros para construirmos a representação do real multiforme. Há sempre uma janela que nos dá acesso para um segmento diferente da paisagem.

A compartimentalização laboral inseriu no processo de decisão variáveis coletivos, por vezes numa sequência exigida pela dinâmica de eventos imprevisíveis. De maneira que o erro de um implica a imprecisão no resultado atribuído a todos. Por isso na utilização de factos, ideias ou precedentes intelectuais os autores usam as bibliografias. Reconhecem a origem da sua informação, prestando ao mesmo tempo homenagem ao seu antecessores. E nos tribunais as testemunhas são chamadas as depor perante os jurados ou os magistrados.

Um tema ubíquo nos meus escritos tem sido a identidade açoriana, e a açorianidade como expressão étnica. As identidades, porém, assentam na memória experiencial do individuo e na memória coletiva inseparável da cultura. Será esta, portanto, no futuro, uma temática a que regressarei.

De modo que me arrogo responsável pela omissão, ainda que constrangido pela absoluta falta de tempo. No futuro, cuja duração me é impossível prever neste momento, não poderei aqui colaborar com a mesma assiduidade dos anos precedentes nesta e noutras publicações e atividades. A frequência da minha colaboração será errática. Mas tanto quanto o tempo para além do presente é previsível, não tenho neste momento outra solução.

2015-08-31 07:41:00

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